«The sea can be calm, melancholic, but also strong and intense. It tells us stories of achievements and victories, persistence and suffering. The waves fall on the sand and they rise over and over again.…
That is our life, our Fado and our feelings: just like the sea, they are immense and can take us further. We have to let them flow, to give them voice!
I thank to all who have helped me to learn with the waves.
To all of you, “A voz do Mar”!»
 
Mariana
 
 
TECHNICAL SHEET 
Production and direction
Armindo Fernandes
Portuguese guitar
Armindo Fernandes
Viola/bass viola
Miguel Gonçalves
Violoncello
Susana Castro Santos
Recorded at
Mstudio
Mixed and mastered by
Márcio Silva
Design
Marco Custódio
Photography
Zé Manel - Photographers
Followed by Armindo Fernandes, on the Portuguese guitar, Miguel Gonçalves, on the viola/bass viola and Susana Castro Santos, on the violoncello, the album has seven original themes, five interpretations of fados from the repertoire of Amália Rodrigues and Maria Teresa de Noronha and an instrumental theme by the master of the Portuguese guitar, Armindo Fernandes. The original themes - with music by the masters Armindo Fernandes and António Chainho and lyrics by António Laranjeira, João Carlos Sarabando, by Mariana herself and by some family members - are in perfect harmony with her way and desire to feel Fado.  The strength, the passion and the color of her voice, together with her expressiveness and sweetness, give a very natural and special glow to this first album of hers.

[Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves]

 
Tinha alegria nos olhos
Tinha sorrisos na boca
Tinha uma saia de folhos
Tinha uma cabeça louca
 
Tinha uma louca esperança
Tinha fé no meu destino
Tinha sonhos de criança
Tinha um mundo pequenino
 
Tinha toda a minha rua
Tinha as outras raparigas
Tinha estrelas, tinha a lua
Tinha rodas de cantigas
 
Gostava de ser quem era
Pois quando eu era menina
Tinha toda a primavera
Só numa flor pequenina

[Mariana Oliveira / Jaime Mendes]

 
Por tuas mãos chego ao longe
E alcanço o infinito
Tu és ponte de ternura
No silêncio deste grito
 
Tu és meu porto de abrigo
Estrela que me conduz
Tu estás sempre comigo
Minha mãe e minha luz
 
Contigo descubro a terra
Aprendo o sonho ilusão
Tu és a palavra certa
Na incerta solidão
 
Minha mãe por ti eu canto
Este meu fado de amor
Reconforto do teu pranto
Alívio da minha dor.

[Luís Oliveira / Armindo Fernandes]

 
Já chegou a primavera
Ao meu peito, ao meu jardim.
Chegou e não estava à espera,
Não sabia que era assim.
 
São flores, são andorinhas
A nascer no coração.
São flores, são andorinhas
Que me levam pela mão
À procura dos caminhos
Que não sei aonde vão,
À procura dos caminhos
A nascer no coração.
 
Já chegou a primavera
Ao meu peito, ao meu jardim.
Chegou e não estava à espera,
Não sabia que era assim.
 
São flores, são andorinhas
Que me deixam sempre em festa.
São flores, são andorinhas
Ou que coisa será esta?
Tantos segredos que são
E sem eles nada presta,
Tantos segredos que são
Que me deixam sempre em festa!
 
Já chegou a primavera
Ao meu peito, ao meu jardim.
Chegou e não estava à espera,
Não sabia que era assim.

[Francisco Oliveira / José António Sabrosa]

 
Quero ser asa veloz
Quero ser história feliz
Entregar a minha voz
A tudo o que o fado diz
 
Quero rasgar horizontes
Ir mais longe e mais além
Beber em todas as fontes
O sonho de ser alguém
 
Quero ser chama adivinha
Poema guitarra canção
Gritar bem alto sozinha
P’ra rasgar a solidão
 
Quero abraçar toda a terra
Descer ao fundo do mar
Subir ao alto da serra
E para sempre cantar

[Ary dos Santos / Alain Oulman]

 
Meu amor, meu amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento
 
Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer
 
E nascemos, nascemos
Do nosso entristecer
 
Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento
 
Meu amor, meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento
 
Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós parámos o vento
Não sabemos nadar
 
E morremos, morremos
Devagar, devagar.

[João Carlos Sarabando / António Chainho]

 
Não tenhas pressa,
Que o tempo passe e te abrace,
Não tenhas não.
Não dês ao tempo
O que não merece e até parece,
Uma maldição.
A vida é terna
Um rio sem foz na tua voz,
E coração.
Um fado imenso
Doce quimera à tua espera,
Mas sem perdão.
Barco sem rumo
Guitarra perdida mas não vivida,
Em escuridão.
O tempo é tudo
E tudo acalma até a alma
Da solidão
Não tenhas pressa,
O amor é louco e sempre pouco,
Na tua mão!

[Armindo Fernandes]

 

[Instrumental]

[António Sarabando / Popular] [Fado menor]

 
Quem entende a voz do mar
E lhe chama solidão
No seu jeito de cantar
Vai falando ao coração
 
Quem traz um sonho consigo
Na ilusão doutro tempo
À vida dá mais sentido
Na força do pensamento
 
E se eu pudesse voar
Descobrir mundos além
Talvez pudesse chegar
Aos sonhos de mais alguém
 
Se neste fado d´amor
Eu te puder alcançar
Será menor minha dor
E mais feliz meu cantar.

[Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves]

 
Quando se gosta de alguém
Sente-se dentro da gente
Ainda não percebi bem
Ao certo o que é que se sente
 
Quando se gosta de alguém
É de nós que não gostamos
Perde-se o sono por quem
Perdidos de amor andamos
 
Quando alguém gosta de alguém
Anda assim como ando eu
Que não ando nada bem
Com este mal que me deu
 
Quando se gosta de alguém
É como estar-se doente
Quanto mais amor se tem
Pior a gente se sente
 
Quando se gosta de alguém
Como eu gosto de quem gosto
O desgosto que se tem
É desgosto que dá gosto.

[Silva Tavares / Frederico Valério]

 
Lá porque ando em baixo agora
Não me neguem vossa estima
Que os alcatruzes da nora
Quando chora
Não andam sempre por cima
Rir da gente ninguém pode
Se o azar nos amofina
E se Deus não nos acode
Não há roda que mais rode
Do que a roda da má sina.
 
Sabe-se lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá
Amanhã o que virá
Breve desfaz-se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe quando nasce
Pró que nasce uma pessoa.
 
O preciso é ser-se forte
Ser-se forte e não ter medo
Eis porque às vezes a sorte
Como a morte
Chega sempre tarde ou cedo
Ninguém foge ao seu destino
Nem para o que está guardado
Pois por um condão divino
Há quem nasça pequenino
Pr'a cumprir um grande fado.

[António Laranjeira]

 
Tem a nostalgia das histórias
Num passado de memórias
Envolto no som do mar
Quem te canta e sonha como eu
Deseja um abraço teu
Na hora de regressar.
 
Nos barcos da coragem e da dor
Numa largada, o amor
Vai na onda que desmaia
No seu coração, a fé, o pranto
A mulher do negro manto
Vai acenando da praia.
 
Refrão:
Praia de Mira,
Protege o meu pescador
Traz depressa o meu amor
Nossa Senhora do Mar
Virgem Maria
Vou acender uma vela
Na vossa humilde capela
Enquanto ele não chegar.
 
O pão que vem do mar e nos sustenta
Que conforta e alimenta
Nas fadigas e marés
Na praia as raparigas trazem flores
Para dar aos seus amores
Que suspiram do convés.

[D. António de Bragança / Joaquim Campos]

 
Outono folhas caídas
com sangue Deus as pintou
folhas tão cedo nascidas
pobres folhas mal vividas
um vento louco as levou.
 
Nasceram na primavera
fê-las Deus da cor da esperança
sonharam uma quimera
serem como as folhas d’ hera
de saudade e de lembrança.
 
Mas chega o verão, o calor,
e as folhas verdes tão belas
vão perdendo o seu frescor
pressentem a sua dor
ficam tristes, amarelas.
 
Ao inverno não chegaram
foram curtas suas vidas
da cor do sangue as pintaram
ventos loucos as levaram
Outono folhas caídas.

[Maria Conceição Nogueira / Armindo Fernandes]

 
A nossa vida o nosso fado
Só nós podemos traçar
Desenrolando nossos sonhos
Esperanças e alegrias
Para os alcançar
Tentarei toda a minha vida
Dar sentido ao que trago no meu peito
Mas sei que o fado e o destino
Não trarão tudo perfeito
A força às vezes já nos falta
Tudo parece ilusão
Olhar o sol e procurar a sua luz
Procurar o que seduz
Vai-nos dar um novo alento
Vai-nos dar aquela força que vem de dentro
O nosso fado não é perfeito
Mas nasce dentro do peito.