Reflexões após ouvir o CD “A Voz do Mar” da fadista Mariana Oliveira

Marcelo Campos Tiago *

Na entrada do Oceanário de Lisboa, diante do principal aquário daquele espaço, o visitante se depara com um belo e curto poema de Sophia Breyner que, de certa forma, é evocativo de todo aquele monumento: “Quando eu morrer / voltarei para buscar/ os instantes que não vivi junto do mar” . Enquanto ouvia pela primeiro vez o cd “A Voz do Mar”, de Mariana Oliveira, vinha-me à cabeça estas frases de Sophia.

E a metáfora do mar não podia ser mais representativa para se falar deste cd: a intérprete, mostrando a garra própria dos jovens, escolheu um repertório bastante variado e decididamente marcado pela delicadeza: revisita as profundezas dos mares do fado (com composições de nada mais nada menos que Amália, Ary dos Santos e Alain Oulman), ao mesmo tempo que dialoga com suas próprias composições e de autores desconhecidos do grande público.

O resultado é um trabalho marcado pela sensibilidade em estabelecer diferentes diálogos entre as tradições do passado (como se fossem as grandes ondas de um mar bravio que a fadista enfrenta com uma competência e sensibilidade toda própria) e seu próprio presente, representado nas suas próprias composições que, guardadas as devidas proporções, não devem nada ao melhores poetas do fado.

Diga-se de passagem que, se a escolha do repertório é um dos diferenciais deste trabalho, o outro reside justamente na qualidade vocal de Mariana. Sua interpretação é marcante e, tal qual um navio diante das ondas de um mar bravio, soube perfeitamente adequar-se ás especificidades de cada fado, mostrando que sua voz é consistente e capaz de desafiar os melhores guitarristas numa bela parceria entre o som da guitarra e aquele que brota da garganta e da alma do fadista.

Impossível ouvir este trabalho e não ficar impressionado com a potência artística desta ainda menina que soube conjugar um manejo vocal todo próprio com diferentes tradições interpretativas que passam pela sonoridade de fadistas tradicionais como Argentina Santos ( com suas célebres entoações dos fados), Fernando Maurício ( e seu jeito todo próprio e charmoso de narrar as histórias que cantava) e também pela criatividade toda própria de Mariana que revela uma maturidade estética que, com o passar dos anos, só tem a ficar ainda mais consistente e plena.

Considero-a não apenas uma das promessas do fado, como poderiam falar alguns,  mas já uma realidade do fado, a certeza de que ela representa que este gênero não apenas não irá morrer, como ele ressucita e se refaz constantemente através da competência de fadistas como ela, Mariana, que tem a coragem de não se curvar resignadamente diante das tradições mas sim de dialogar e estabelcer novos caminhos para o futuro.

Como uma criança, que achega aos seus ouvidos uma concha para ouvir o som do mar na concha, assim é a sensação que tive ao apreciar a delicada e ao mesmo tempo frágil e firme voz da fadista, ao interpretar os diferentes temas deste seu primeiro cd.

E, com toda a licença poética que só a arte permite, se eu pudesse refazer o poema de Sophia que citei no início, assim terminaria este meu texto

“Quando se quer viver / deve-se sempre ouvir cantar/ os fadistas que nos fazem /viver junto do mar”.

Do mar de emoções que brotam deste belo Cd.

Parabéns Mariana!

* Doutorado em educação, arte e história da cultura portuguesa pela Universidade de São Paulo